Locução do Prof. Dr. Ivo de Queiroz

Campo Morão, 01 de Outubro de 2025,

Anfiteatro E da UTFPR Campo Mourão,

Cerimônia de Abertura do II Encontro dos NEABIs e dos Coletivos de Estudantes Negros e Indígenas da UTFPR.

Locução representativa da diretoria da SINDUTF-PR
Prof. Dr. Ivo Pereira de Queiroz

Boa tarde e muito Axé a cada pessoa presente nesta sala! Axé, pra todo mundo, Axé!

Aqui estamos cientes e conscientes de que somos filhas e filhos de povos de além mar. Nossos passos vêm de longe: abençoadas e louvadas sejam as nossas ancestrais! Do seu sangue e do seu ventre, de suas mãos e de suas almas, ganhamos o fôlego de vida e a energia espiritual que nos alimenta até agora.  Abençoadas/os e louvadas/os sejam as/os nossas/os ancestrais! 

Convido cada uma e cada um de vocês a doar um minuto de sua atenção para fecharmos os nossos olhos e evocarmos as lembranças de nossas/os antepassadas/os.

Muito obrigado: vamos dar uma salva de palmas em honra de nossos/as sagradas/os e sublimes ancestrais!

Fui designado para compartilhar uma mensagem da Seção Sindical dos Docentes da nossa universidade. O nosso presidente, Prof. Dr. Edson Fagundes, está atendendo a outras demandas do mandato e, em nome dele e de toda a diretoria entrego aqui um fraterno abraço a cada um/a de vocês.

Este II Encontro dos NEABI’is da UTFPR é um momento precioso de fortalecimento da nossa caminhada e, para nós, sinaliza um novo tempo. Como diz Helena, minha esposa, para os novos tempos, novos quilombos! Assim, a presença atuante de um Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas em cada campi da UTFPR é um sinal vivo do espírito quilombista que nos anima.

Caríssimas e prezados, os NEABI’s são a contramão do Brasil tradicional. Ora, não é necessário muito esforço para trazermos ao primeiro plano das lembranças as imagens do Brasil escravocrata, campeão do tráfico negreiro, país da escravidão desumanizante mais longeva e geograficamente mais extensa da modernidade, que envolveu o maior contingente de pessoas africanas submetidas ao regime de escravidão. E, como se não bastasse, a herança do Brasil escravista espalhou a violência racial como se fosse um vírus, no sentido como presenciamos, recentemente, na crise da COVID-19. Pior, ainda não inventamos uma vacina contra o racismo e a violência racial! Porém, podemos produzir boas teorias e realizar práticas antirracistas consistentes.  Após a abolição da escravidão criminosa, aconteceu o alastramento do racismo, com diuturnas matanças de gente preta, com rompantes eugenistas, o mito da democracia racial, o racismo institucional, o epistemicídio, o teocídio e o racismo acadêmico.

Ora, a universidade não é uma ilha, um paraíso tropical, isento das mazelas que constituem a identidade do país. A universidade é como um estuário onde deságuam rios que carregam, e nela depositam, todas as expressões de humanidades e desumanidades que circulam pela sociedade brasileira. Por isso encontramos na universidade  o racismo que vigora, teimoso e resistindo ardilosa e violentamente a cada passo.

O Brasil ainda é um país infestado pelo racismo. Os efeitos estão presentes nas matrizes curriculares de cada curso e em todo o resto dos espaços e práticas universitárias. É uma doença social gravíssima, que requer intervenção curativa, urgentemente!!!

Em 1996, começamos a questionar publicamente o racismo na instituição – à época, CEFET-PR. O primeiro alerta aconteceu, justamente, a partir de uma publicação do sindicato dos docentes que, contraditoriamente, resvalou numa prática de linguagem colonizada e racista. Porém, a partir do questionamento, as pessoas que dirigiam o sindicato abriram-se ao aprendizado do combate ao racismo. Desde aquele momento, tenho presenciado um crescente esforço dos dirigentes do sindicato em tomar consciência da violência racial e a contribuir no seu enfrentamento. A Seção Sindical dos Docentes da UTFPR é um coletivo parceiro no combate ao racismo.

Neste momento, vejo com muita alegria e esperança o processo de consolidação do NEABI em toda a instituição. Sempre sonhei com a universidade repleta de juventude negra assumindo o seu justo lugar. Atualmente, a paisagem social dos campi das universidades do país começa a mostrar a pluralidade de feições e de perspectivas culturais, com a presença das juventudes negra e indígena. Temos muito trabalho neste processo de transição. Para finalizar, convido você a considerar uma última reflexão:

Aimé Césaire (1913-2008), o poeta da negritude, nascido na Martinica, num discurso proferido em Miami, em 1987, rompendo longos anos de silêncio,  ensinou ao mundo que:

Vale dizer que a Negritude, em seu estágio inicial, pode ser definida primeiramente como tomada de consciência da diferença, como memória, como fidelidade e como solidariedade. (CÉSAIRE, Aimé. (2010, p. 79).

Quando Césaire nos chama a atenção para que tomemos “Negritude, em seu estágio inicial como tomada de consciência da diferença, como memória, como fidelidade e como solidariedade”, penso que ele nos ajuda a localizar o nosso próprio, o nosso papel, o sentido da nossa intervenção intelectual e militante. Aqui está a raiz fontal do nosso empenho: se o NEABI perder de vista a tomada de consciência da diferença, a memória, a fidelidade e a solidariedade africanas, teremos fracassado ruidosamente. Pior, deixaremos as portas e janelas abertas para que os ares da colonialidade e seu capitalismo insensível penetre as almas da juventude negra por todos os poros. 

Abandonar a tomada de consciência, a memória, a fidelidade e a solidariedade africanas nos converterá em cúmplices da colonialidade; poderemos ser comparados a seminários formadores de novas gerações de sacerdotes e sacerdotisas acríticos/as do capitalismo desumanizante.

Em tempo: O passado nos alerta: esta radicalidade costuma ter preço. O poder institucional tem longo histórico punitivo. Temos que estar atentos, fortalecer nossa representatividade de classe e constituir um corpo jurídico que nos ajude a enfrentar desaventos…

Modupé! Axé!


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